CONCEPÇÃO Marilu Melo |
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A arte disseca a alma e traduz naturalmente nossos sonhos, nossa época, nossa oração. Com esse sentimento, penso, vivo e executo trabalhos em pintura, escultura e cerâmica, fundamentando-os entre o mundo dos códigos e o mundo das idéias. São temas associados às origens, onde a essência do elemento humano é trazida e resgatada como forma de expressão atemporal. |
Há na obra, um afeto à essencialidade. Uma recorrência espiritual que evoca da memória resvalos do consciente e do inconsciente trazendo o olhar de um âmbito universal ao particular de um passado distante ao mundo em ebulição em que vivemos. O espaço físico da tela organiza-se a partir de cores harmônicas. São camadas de tintas superpostas que condensam a cobertura de relevos e ondulações, previamente entalhados, cujos sulcos seguem desafiando o tempo subseqüente, para uma possível interrupção visual. Essa intervenção acomoda-se ao olho do espectador como elemento iconográfico atingindo assim uma comunicação secreta que fala pela alma – a força da linguagem subjetiva, seus ecos e seus mistérios. São signos indicativos, fissuras costuradas, brechas tortuosas e significativos contornos de imagens humanas que transgridem no espaço como detentor da sabedoria. O ser humano como centro do universo e o universo conspirando a favor do homem. Esses sinais, algumas vezes, emancipam-se da secura terral, do chão, do grão para envolver-se com as entranhas e a carnalidade das coisas. Eclodem, então, feridas entreabertas, untadas de sangue e suor a enunciar força. A força que sacramenta o senso coletivo, o grito desesperado pelos desmandos à nossa biogênese, que insiste em se fazer brotar para assegurar a sobrevivência. Surgem, então, elementos naturais como peles de animais e outras espécies vegetais que figuram na obra como matéria orgânica fragmentada. É a maneira de trazer a arte através dos tempos: criando paisagens incomuns como se fossem janelas de onde o espectador, olhando-as, possa enxergar seu próprio universo. Seduz-me, também, o fato de poder prendê-lo entre as mãos e numa espécie de trajetória poética amassar, modelar, esculpir, sentir com vontade, sua aderência plástica e num ímpeto de domínio, de maior entendimento entre criador e criatura, dar-lhe forma. A obra em formação roga agora por legitimidade, por uma identidade cultural que a traduza, e expande-se numa pura entrega, para receber sem retórica, fragmentada e crua, intervenções que se fundem e se intercalam em minúsculas áreas de silêncio. Nesse momento as mãos obedecem a um novo sentir. Impulso que se mistura à matéria pelo toque, abrindo-lhe frestas que segmentam rasgos furtivos, frisos e vazados, para dar indistintamente ao corpo peso e autenticidade. |
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